sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Clariceando (2)

Trecho de uma carta de Clarice Lispector:

" [...] após muitos anos de exílio e com a perspectiva de volta iminente ao Brasil, vislumbramos o retorno do estilo clariciano em sua integridade, pleno de energia e de profundas reflexões:

Fiquei contente em Marcinha perguntar quando volto. Diga a ela que talvez no começo do ano que vem estejamos lá. Diga a ela que esses anos todos pingaram gota a gota e que eu por assim dizer contei uma por uma – mas que ao mesmo tempo passaram incrivelmente depressa porque um só e único pensamento ligou-os: esse tempo todo foi como o desenvolvimento de uma idéia só: a volta. Diga a ela que não espere, por isso, me ver voltar aos pulos de alegria e aos risos: nunca se viu ninguém sair da prisão aos risos: a alegria é muito mais profunda, e também o tempo de contenção e a obrigação de paciência ensinam a calma (Minhas Queridas, 2007, p. 184)".


In.: Miscelânea de afetos e notícias: o discurso das cartas em Clarice Lispector, de Vera Lucia Albuquerque de Moraes e Fernanda Maria de Abreu Coutinho, ALCEU - v. 10 - n.19 - p. 87 a 100 - jul./dez. 2009.

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Som de viagens!!



Definitivamente: Biquini Cavadão é a trilha sonora daquela viagem com um grupo de amigos, na qual todos vão cantando e dançando, tomando sério cuidado, claro, com os outros carros que passam por nós!! hehe...

Mas aqui vai aquela música de fim de tarde, com 2000 km rodados, todos cansados e sendo contemplados por um fantástico pôr-do-sol, um céu vermelho... loucos pra chegar logo em casa, mas com a animação pra curtir a estrada nesse finalzinho de viagem!!


Meu reino - Biquini Cavadão

Atrás da porta
Guardo os meus sapatos
Na gaveta do armário
Coloco minhas roupas
Na estante da sala
Vejo muitos livros
E a geladeira conserva o sabor das refeições
Minha casa é meu reino
Mas eu preciso de outros sapatos
De outras roupas, outros temperos
Para formar minhas ideias e meus sentimentos
Eu sou a soma de tudo que vejo
E minha casa é um espelho
Onde a noite eu me deito e sonho com as coisas mais loucas
Sem saber porque
É porque trago tudo de fora
Violência , dúvida, dinheiro e fé
Trago a imagem de todas as ruas por onde passo
E de alguém que nem sei quem é
E que provavelmente eu não vou mais ver
Mas mesmo assim ela sorriu para mim
Ela sorriu e ficou na minha casa que é meu reino
É porque trago tudo de fora
E minha casa é um espelho
Trago a imagem de todas as ruas
Eu sou a soma de tudo que vejo
Mas mesmo assim, ela sorriu pra mim
Ela sorriu e ficou na minha casa que é meu reino





"é impossível esquecer o que vivi, é impossível esquecer o que senti..."


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sábado, 13 de novembro de 2010

Carta de Clarice Lispector

Berna, 2 de janeiro de 1947

Querida, Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma. Tua Clarice.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O alfabeto no parque

"Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa."

(Adélia Prado)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vontade de ser chuva!

Essa eu descobri hoje e o disco já está riscado de tanto que ouvi!!

Quando Fui Chuva (Composição: Luis Kiari e Caio Soh)

cantada por Maria Gadú e Luis Kiari


Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer,
Acomodei minha dança, os meu traços de chuva
E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser tua

Quando já não procurava mais
Pude enfim nos olhos teus, vestidos d'água,
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos, as calçadas

E, assim, no teu corpo eu fui chuva
... jeito bom de se encontrar!
E, assim, no teu gosto eu fui chuva
... jeito bom de se deixar viver!

Nada do que fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra tua boca

E, mesmo que em ti me perca,
Nunca mais serei aquela que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela

sábado, 6 de novembro de 2010

Cer Queira

Aquela música que é tão minha que até parece que fui em quem escreveu.
Mas aí vem essa vida e apresenta-me a ele, o compositor e cantor e um dos caras mais coração e romântico e tão parecido comigo que já conheci.
O Henrique é assim, feito de sonhos e de força e fé e luta pra alcançar o que ele busca. E sinto Deus perto de mim por meio da voz dele...

E agora... de alguma forma as palavras são feitas e sentidas e ouvidas e vividas por mim!
Uma das músicas que são minhas e que sempre vai tocar aqui.

Flor - Henrique Cerqueira
O amor é uma semente de uma flor que brota na gente pra cuidar
Com muito carinho assim
Com paixão e com amizade
Com paixão e cumplicidade
Coração fértil como um jardim

O amor esse desafio quando for o tempo de frio
E você chegue até pensar no fim
É só crer e ter esperança depender
Como uma criança de quem fez
Tudo desse jeito assim

Essa flor um fracasso certo para quem
Der uma de esperto e querer
Sem trabalho só prazer
Não se envolver que covarde ausente
Não investir que ego impaciente
Infeliz assim a flor não vai viver

Essa flor esse desafio quando for o tempo de frio
E você chegue até pensar no fim
É só crer e ter esperança depender
Como uma criança de quem fez
Tudo desse jeito assim
Espera o sol trazendo a primavera
Pra mostrar que isso tudo era pra entender
Que ela só é forte assim!

...

Carinho e atenção!
Obrigada!



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Epitáfio!

Ainda em vida, com muita vida a ser vivida, mas inspirando-me no que posso ser e no que quero deixar... e adoro Adélia Prado. Seus livros e suas palavras abraçam-me... sempre!


Com licença poética - Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Clariceando...

Meio que acho que vou voltar...
Pra, de alguma forma, colocar aqui os tantos textos e literatura e músicas e poemas e emoções que esbarro por aí, aqui e acolá todo dia...
E volto com um trecho de algo que li hoje no momento em que falava de uma coisa muito séria com uma amiga. Ai vem a Clarice Lispector em Água Viva, na página 67 e 68, com uma fala que fez assim: toma aqui Maria, coloco em palavras o que você tá sentindo aí em abstrações::

E foi assim...

"Antes de me organizar, tenho que me desorganizar inteiramente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me. Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se aprende a andar e - milagre - se anda."
Clarice Lispector


Milagres existem!!